Imprimir

Papa ataca visão utilitarista do ensino

Escrito por sintese Ligado . Publicado em Mundo

Em fala a professores universitários, Bento XVI critica a ideia de que a educação deve se limitar a satisfazer as demandas do mercado

AFP, Efe e Reuters - O Estado de S.Paulo

No segundo dia de sua visita à Espanha, o papa Bento XVI criticou, em encontro com cerca de 1,5 mil professores universitários, a tendência "utilitarista" da educação nas últimas décadas, que se limita a satisfazer a "demanda do mercado".

Celebração. Bento XVI durante procissão em Madri, no fim da tarde; antes, ele se reuniu com acadêmicos, algo inédito em uma Jornada Mundial da Juventude - Rafa Rivas/AFP
Rafa Rivas/AFP
Celebração. Bento XVI durante procissão em Madri, no fim da tarde; antes, ele se reuniu com acadêmicos, algo inédito em uma Jornada Mundial da Juventude

O encontro com professores de ensino superior foi feito a pedido do papa, na Espanha por ocasião da Jornada Mundial da Juventude - reunião de jovens criada no pontificado de João Paulo II, que termina amanhã.

"Às vezes se pensa que hoje a missão de um professor universitário seja exclusivamente a de formar profissionais competentes e eficazes, que satisfaçam à demanda trabalhista", criticou. "Também se diz que se deve privilegiar a mera capacitação técnica. Certamente, difunde-se na atualidade essa visão utilitarista da educação, incluindo a universitária, mas especialmente nos âmbitos extrauniversitários", continuou Bento XVI, aplaudido de pé na Basílica de São Lourenço do Escorial, próximo a Madri.

Na opinião do papa, a visão meramente utilitarista da educação é antiética e leva ao totalitarismo. "Quando apenas a utilidade e o pragmatismo são eleitos como critério principal, as perdas podem ser dramáticas: desde os abusos de uma ciência sem limites até o totalitarismo político, que se aviva facilmente quando se elimina toda referência superior ao mero cálculo de poder." Para ele, a universidade deveria voltar à sua autêntica vocação, a da "busca da verdade humana".

Antes de ser papa, Joseph Ratzinger foi professor universitário por 25 anos. Ele recordou a grandeza da vida intelectual interdisciplinar na Universidade de Bonn, que frequentou após a 2.ª Guerra. "Quando ainda se sentiam as feridas da guerra, consolavam-nos uma atividade apaixonante, o trato com colegas de diversas disciplinas e o desejo de responder aos questionamentos fundamentais dos alunos."

"A universidade encarna, pois, um ideal que não deve ser desvirtuado por ideologias fechadas ao diálogo racional nem por um servilismo a uma simples lógica utilitarista de mercado, que vê o homem como mero consumidor. Eis aí sua importante e vital missão", disse aos docentes.

Procissão. De volta a Madri, o papa encerrou o dia com uma procissão. Durante o ato, ele ouviu orações de diferentes setores da sociedade, que incluíram vítimas de abuso sexual e desempregados.

Mais cedo, Bento XVI se reuniu com o primeiro-ministro José Luis Rodríguez Zapatero.

A viagem tem sido marcada por protestos. Na noite de quarta-feira houve confronto da polícia com manifestantes que criticaram os custos da visita papal. O Vaticano lamentou o ocorrido, que classificou como "marginal".