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Indústria da Seca e o uso da Seca no Nordeste

Escrito por Caroline Santos Ligado . Publicado em Roberto Santos


A falta de chuva levou 11 municípios sergipanos, no fim de 2010 e início de 2011, a decretarem situação de emergência em Sergipe, até esta quarta-feira 05 de Janeiro de 2011. A Defesa Civil do Estado informa que em algumas regiões do Estado não chove desde setembro de 2010. A estimativa é de que quase 75 mil pessoas estão sofrendo pela estiagem. Em alguns municípios afetados com a falta de chuva já houve até perda de animais, de safra e diminuição na produção de leite por causa da seca.

Para amenizar os efeitos da seca em Sergipe, a Defesa Civil está atuando na distribuição de cestas básicas para as famílias prejudicadas pela estiagem, e está realizando em parceria com o governo do Estado, a Operação Pipa, para a distribuição de água nos povoados afetados. Já foram distribuídas mais de 6 mil cestas básicas e são usados 95 caminhões-pipa.

Estão em situação de emergência decretada os municípios de Gararu, Nossa Senhora da Glória, Monte Alegre de Sergipe, Poço Redondo, Porto da Folha, Canindé de São Francisco, Frei Paulo, Itabi, Nossa Senhora de Lourdes, Nossa Senhora de Aparecida e Poço Verde.

Segundo informações da Seides-Secretaria de Estado da Inclusão Social, o Governo já realizou entrega de cestas de alimentos para os municípios que decretaram situação de emergência no período de estiagem. O município de Canindé de São Francisco recebeu 1.200 cestas, Monte Alegre 1.300 e Nossa Senhora da Glória 1.100. Os outros municípios somarão mais de 6.800 cestas básicas. No ano de 2009 o Estado teve 12 municípios que decretaram estado de emergência em função da seca.

Além da distribuição de cestas básicas, a distribuição da água através da Defesa Civil é importante, já que muitos sertanejos não têm condições de comprá-la, pois custa em média R$ 80,00 a carrada de um Caminhão-Pipa.

O processo de desmatamento da caatinga está provocando mudança no clima semiárido, predominante no sertão nordestino, que fica cada vez mais seco, a temperatura máxima da região tem apresentado aumento significativo e essas áreas sofrem com chuvas intensas no período chuvoso com sérias conseqüências para a região. Entretanto, os intervalos com período seco é maior. Outra mudança, resultado do extrativismo, do desmatamento desordenado, das queimadas e do uso intensivo do solo na agricultura é o aumento da desertificação.

De acordo com o PAN (Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca, ligado Ministério do Meio Ambiente), 1.482 municípios estão em área suscetível à desertificação em nove Estados (Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e norte de Minas Gerais). Essa área responde por 15,7% do território brasileiro, onde moram 31,6 milhões de pessoas.

Para diminuir o avanço da desertificação são necessários medidas como conservação do solo, da água e das florestas, ações para evitar o desmatamento, as queimadas, o uso de agrotóxicos, e a sensibilização da população, principalmente das comunidades rurais.

Em outros casos, quando as chuvas são suficientes apenas para cobrir de folhas a caatinga e acumular um pouco de água nos barreiros e açudes, mas não permitem o desenvolvimento normal dos plantios agrícolas, dá-se a seca verde. Essas variações climáticas prejudicam o crescimento das plantações e acabam provocando um sério problema social, uma vez que expressivo contingente de pessoas que habita a região vive, verdadeiramente, em situação de extrema pobreza.

A seca é o resultado da interação de vários fatores, alguns externos à região (como o processo de circulação dos ventos e as correntes marinhas, que se relacionam com o movimento atmosférico, impedindo a formação de chuvas em determinados locais), e de outros internos (como a vegetação pouco robusta, a topografia e a alta refletividade do solo). O fenômeno do "El Niño", também contribui pois consiste no aumento da temperatura das águas do Oceano Pacífico, ao largo do litoral do Peru e do Equador e interfere na circulação das massas de ar frias que provoca chuvas no Nordeste. A ação do homem também tem contribuído para agravar a questão, pois a constante destruição da vegetação natural por meio de queimadas acarreta a expansão do clima semi-árido para áreas onde anteriormente ele não existia.

Entretanto, as regiões semi-áridas e áridas do mundo são aproveitadas pela agricultura, por meio do desenvolvimento de culturas secas ou culturas irrigáveis, como acontece nos Estados Unidos, Israel, México, Peru, Chile ou Senegal. Portanto, o Nordeste brasileiro podear ser utilizado, também, para as culturas agrícolas irrigadas, mas por que não é?

A seca é um fenômeno natural que se manifesta de forma perversa e oportunista na medida que é utilizada para interesses políticos, provocando a manutenção da pobreza e da miséria na região. Portanto a seca é usada para provocar a destruição da natureza, a poluição dos rios e a exploração por parte os grandes proprietários, altos comerciantes e políticos conhecidos como “coronéis” dos recursos destinados ao combate à pobreza da região. Esse fenômeno é denominado de "indústria da seca".

A questão da seca não se resume na falta de água. A rigor, não falta água no Nordeste. Faltam soluções para resolver a sua má distribuição e as dificuldades de seu aproveitamento. É necessário, para os governantes, eliminar a idéia de que a seca, sendo um fenômeno natural, é responsável pela fome e pela miséria que dominam na região. O problema, na verdade é a “indústria da seca”.

Os grandes latifundiários nordestinos, valendo-se de seus aliados políticos, interferem nas decisões tomadas, em escala federal, estadual e municipal. Beneficiam-se dos investimentos realizados e dos créditos bancários concedidos. Não raro aplicam os financiamentos obtidos em outros setores que não para ajudar a população pobre, e aproveitam-se da divulgação dramática das secas pelos meios de comunicações para conseguirem muito recursos. Os grupos dominantes têm saído fortalecidos, enquanto é protelada a busca de soluções para os problemas sociais e de oferta de trabalho às populações pobres. Os trabalhadores sem terra (assalariados, parceiros, arrendatários, ocupantes) são os mais vulneráveis à seca. Esses mesmos trabalhadores acabam mantendo no poder as mesmas pessoas que concederam algum tipo de ajuda quando necessitavam (cestas básicas e água de caminhões pipas, por exemplo).

A tragédia da seca encobre interesses escusos daqueles que têm influência política ou são economicamente poderosos, que procuram eternizar o problema e impedir que ações eficazes sejam adotadas. A questão da seca provocou diversas ações de governo. As primeiras iniciativas para se lidar com a questão da seca foram direcionadas para oferecer água à zona do semi-árido. Nessa ótica foi criada a Inspetoria de Obras Contra as Secas (Decreto n°-7.619, de 21 de outubro de 1909), atual Dnocs, com a finalidade de centralizar e unificar a direção dos serviços, visando à execução de um plano de combate aos efeitos das irregularidades climáticas. Desde lá muitos recursos já foram, teoricamente, investidos na Região Nordeste mas pouco, de eficaz, foi feito para sanar, de vez os efeitos da seca no Nordeste brasileiro.